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Esta é a história da arte que surge em meio a desilusões.

Samba de Uma Nova Gente expressa a dor e a transformação de pessoas que tentam ser apenas comuns, mas que são impulsionadas a fugir de sua gente, de sua pátria, de sua vida tradicional, de si mesmo.

O filme conta a história de Beto Blue, um jovem advogado brasileiro, de nome Roberto Campos. Beto leva uma típica vida de classe média urbana no Brasil. Fizera tudo que deveria ter feito: estudou, tem um emprego seguro, divertiu-se, casou-se, trabalha em uma ONG, tem bons amigos.

Mas Beto tem algo diferente: é inquieto e pensativo demais. Enquanto faz tudo aquilo que um brasileiro em sua condição deveria fazer, começa a lhe sobressair alguma angústia frente ao seu cotidiano: seu casamento está desabando cedo demais; seu emprego é maçante, inútil e corrompido; seus colegas de trabalho são chatos e pedantes; suas amizades são vazias.

Beto, contudo, faz mais do que apenas se entristecer solitariamente. Ele abre os olhos para além de sua vida pessoal e tenta enxergar o que o cerca.

O que fazer quando tudo parece desabar? Beto faz músicas em meio à sua agonia. E canta versos como estes:

Acreditara eu num dia findo ter a me esperar um doce lar
Braços ardentes abertos a me encontrar
Crianças contentes livres a me abraçar
Um cheiro bom no ar, gente feliz a cantar!

Mas o que eu encontro mudo a não me ver chegar
Crianças que não nasceram, gritos histéricos de algum aparelho.
Um rosto inerte, embrutecido por este viver
Um espelho trágico a me lembrar
Que o grande horror mal acaba de começar.

Assim começa a saga de Beto Blue.

Samba de Uma Nova Gente é uma ópera-rock. Mais precisamente uma ópera-samba-rock. É, portanto, um filme musical. Mas não há danças nem personagens cantando. As melodias trazem os sentimentos do filme. As letras das músicas – misturando rock e MPB – fazem a narrativa da história. Contam a trajetória de Beto Blue e trazem suas reflexões.

Beto sente em si a possibilidade de traduzir em músicas e poesia o que está acontecendo com o povo e com o país em que nasceu. Ele é músico amador. Transita pelo cenário alternativo do rock brasileiro. Conhece um pouco do underground das grandes cidades do país. Sempre lera os poetas marginais, os escritores do submundo. Trabalha junto a gente pobre e sofrida. Com sua mente efervescendo, agora parece ser a sua hora de ir além do trivial, de escancarar, de gritar, de fazer sua voz ser ouvida!

Beto quer fazer soar o “lado B” da brasilidade do início do Século XXI: os blues melancólicos, a psicodelia gótica, o hardcore, os sambas tristes. Fazer emergir a voz dos subterrâneos. Romper o silêncio da angústia no “país do futebol” e da musicalidade alegre e festiva.

Sentado em um bar, Beto observa uma tumultuada rua. E inicia a escrever a letra do samba-rock que dá nome ao filme:

Esses dias atrás eu me vi tentando entender
As pessoas aí como eu.
Nesta merda estamos sós,
Disfarçados de gente fina!
Lutando por migalhas debaixo desse sol!
Esperando Deus dar jeito nessa chacina!
E até acreditando em gente que diz saber mais do que nós.

Mas a vida não pára e também não espera. A cada dia de criatividade seguem outros dias de chata e vazia rotina. Logo o casamento de Beto termina. Ele, então, tenta uma vida diferente. Precisa encontrar novos sentidos. Se aproxima ainda mais das pessoas alternativas, das figuras do submundo, dos outsiders. Os valores de Beto estão se transformando.

Beto viera de uma típica família brasileira. Mas como um reflexo do povo brasileiro que sente à sua volta, algo está em transformação dentro de si: há uma outra brasilidade em ebulição.

Para quem, no entanto, não consegue entender para onde ele está indo, Beto canta:

Se você não quer perder tua ilusão,
Nem quer acreditar que já ruiu teu chão,
Então me diga adeus
E chame alguém pra matar mais um ladrão!

A voz do submundo popular brasileiro surge através de sua musicalidade.

O dia-a-dia, contudo, segue opressor e pesado. Como tantos brasileiros, Beto resolve ir embora do país. Triste e demorada é a partida, mas ele sente que não há como não ir. Sua vida desmoronou. No Brasil ele não pisa mais em solo firme. Sente em si o ódio que cresce entre os brasileiros. Entre revoltado e com medo, sabe que precisa fugir, mesmo não sabendo exatamente do que e nem para onde.

Beto se muda para a Espanha. Lá, sua condição social é outra. Ele conhece a Europa das festas e “baladas” sofisticadas; mas também a Europa dos guetos de imigrantes e do subemprego. Descobre a Europa que ama os brasileiros, mas também a Europa que ergue seus novos muros. Justamente fora do Brasil, portanto, Beto se conhece melhor como brasileiro; para o bem e para o mal. Completa-se a sua metamorfose, ao mesmo tempo em que se reflete a transformação de um país.

Em Madri, Beto conhece outros brasileiros, cultos e incultos, bandidos e inocentes. Todos querem, cada qual a seu modo, um espaço em um mundo em globalização. Beto está agora de um outro lado. Ele atravessou a fronteira daqueles que não são mais bem-vindos, que querem ser “cidadãos do mundo” a qualquer custo. Beto, então, conhece a dor dos apátridas:

Só não sei por que fui eu despertar no temporal!
Se é de ilusão que é feita a vida,
Como é que faço pra voltar?

Beto termina por viver os dois lados de um mundo que deseja ser civilizado através de leis e de justiça. E acaba conhecendo o lugar dos brasileiros neste novo mundo:

Sou brasileiro, sim!
Vai ser difícil se livrar de mim
Agora que eu vi e gostei, e me multipliquei!
Eu quero ver você fazer
O que eu faço pra sobreviver.
Me esgueirar entre tuas leis
Viver sem nunca ter tido a minha vez!

Samba de Uma Nova Gente canta uma outra versão da luta do brasileiro em busca de seu lugar no mundo. Aqui há tristeza, há euforia, há revolta, há transgressão. O velho e o novo Brasil em músicas e imagens.

 

 
 
 
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